A Herança de Si Mesmo

"Os grandes homens que se destacam através das três épocas clássicas em que se divide a história humana, sempre foram reconhecidos grandes por seus pensamentos e por suas idéias quando, após titânica e firme luta, conseguiram mover a atenção e fazer com que se advertisse o bem que continham. Em quantas mentes penetrou a luz de seus pensamentos e idéias! Quantas foram fecundadas com a semente das extraordinárias concepções daquelas inteligências que puseram ali todo o poder de sua influência criadora".
Carlos Bernardo González Pecotche - Criador da Logosofia

quarta-feira, 9 de novembro de 2011


As  feras  mentais

por Hélio Cannizzaro
 

Carlos Bernardo González Pecotche (1901-1963), pensador e cientista argentino, criou a ciência “Logosofia” e a fez depositária de uma nova linha de conhecimentos originais e concretos, todos eles direcionados para o aprimoramento da natureza extrafísica humana nos seus aspectos – mental, moral, psicológico e espiritual.

Para facilitar a interpretação e a compreensão dos seus princípios e ensinamentos González Pecotche utiliza-se de uma didática e de uma pedagogia clara e transparente e não raro recorre a uma história, um conto, uma metáfora, um axioma ou uma analogia, como a que está contida no seu artigo adiante reproduzido:

A IMAGEM DA SELVA MENTAL

A mente humana é o mais sensível que pode existir; é a suprema sensibilidade do sensível. As imagens gravam-se nela por efeito das impressões recebidas. Por essa causa, quando o homem venceu a fera e a matou, a imagem desta gravou-se em sua mente, começando sob esta nova forma, a adquirir vida no interno e a dominar o ser. Por isso o homem é, às vezes, agressivo e desumano, pois ainda lhe faltam realizar alguns trabalhos hercúleos entre eles o de dominar a fera interna, a de sua selva mental, que é a mais selvagem de todas as feras. A Logosofia ensina a descobri-la entre as sombras desse bosque, para que, vigiando-a, seja impedida de matar as formosas aves que querem cantar no mais íntimo do ser. Mas, não se compreendeu ainda a grandeza desta verdade: e é por isso que ainda reina a fera no bosque mental. Entretanto, é necessário dominá-la, mas não com as armas da violência, senão com as da persuasão, da limpeza e da verdade. A fera não deve morrer, porque o triunfo não está em matá-la; é necessário que viva, mas em estado doméstico. Essa fera, domesticada, é a representação da força interna, que, se hoje é uma força sem controle, amanhã será uma força inteligente que fortalecerá o ânimo e encherá de grandes estímulos a vontade humana. Será então quando o homem poderá dizer: - sou dono de minhas próprias posses internas, porque soube dominar e amansar a fera dentro de mim mesmo. Os estados mentais pelos quais passam uns e outros são por demais curiosos: por momentos, muito bons; a selva está tranqüila e suaves brisas perfumadas os embriagam de alegria. Ao contrário, em outros momentos, a mente adquire um aspecto sombrio; a fera estremece, as narinas se dilatam, encrespa seu ânimo e todo mundo se previne porque algo está ocorrendo dentro do bosque mental. Deveria cada um perguntar-se porque está sempre à mercê dessa fera, mostrando-se incapaz de viver tranqüilo dentro de seu reino, inseguro de suas próprias posses. Como é possível, em tais condições, oferecer paz aos demais? Eis aí uma indagação que todos devem formular-se”.


Posso afirmar, sem receios de estar incorrendo numa propensão ao exagero, que todos nós humanos temos dificuldades em reconhecer a existência em nós mesmos de deficiências e propensões psicológicas – autênticas feras mentais, menores e maiores – enraizadas em nossa psicologia, dotadas de vida própria, autônomas, despóticas, arbitrárias, ferinas, que nascem, crescem, vivem e compartilham do comando dos nossos atos, das nossas palavras e do nosso comportamento independentemente do nosso querer e da nossa inteligência.


É muito difícil, para não dizer impossível, alguém – sem estudar e dominar a “Ciência da Vida” – compreender e aceitar que é um criador nato e um permanente alimentador das suas feras internas, carregando-as como “penduricalhos” da sua psicologia para ser atacado, mordido ou picado a qualquer momento por algumas delas.


Eu também não fui excluído do desconhecimento dessa inusitada e perversa realidade interna. Antes de abraçar os estudos e os experimentos da ciência Logosofia, eu me deixava iludir por uma falsa visão de que as deficiências e propensões psicológicas (defeitos, no conceito corrente) como a intolerância, a impaciência, a petulância, a impulsividade, o rancor, o pessimismo, a inveja, o ressentimento, o ódio, a obstinação, a teimosia, o egoísmo, etc., existiam nas pessoas dos meus vizinhos, nos meus familiares, nos meus companheiros de trabalho, enfim nos meus semelhantes, mas nunca em mim mesmo e não me abdicava daquela “musiquinha de fundo”que todos temos os nossos defeitos e que ninguém neste mundo é perfeito. Paradoxalmente, mesmo declarando por palavras ter os meus defeitos, eu não sabia da existência de um só deles em meu comportamento.


Contrariamente a uma frase conhecida e cantada numa música popular brasileira, cujo autor não me ocorre agora, que diz que “eu era feliz e não sabia”, eu, como criador e alimentador inconsciente das minhas deficiências e propensões psicológicas, de forma alheia à minha observação e ao meu entendimento, permitia que as minhas feras mentais passeassem livremente no meu quintal psicológico que bem poderia ser convertido numa paródia burlesca àquela música popular cantando que “eu era infeliz e não sabia”.


A cômoda posição de filosofar sobre si mesmo de que não é necessário estudar e praticar a Ciência da Vida porque o que se sabe já é o suficiente para sustentar uma existência sem atrativos superiores e transcendentes é o que tem impedido que nós conheçamos a nossa fauna interna, pois se eu parto do pressuposto de que não sou portador da deficiência psicológica da vaidade; da inveja, nem pensar; da presunção, muito menos; e, da falsidade, Deus me defenda; eu estou fechando o único canal que poderia me conduzir ao encontro de algum rastro ou vestígio dessas traiçoeiras e indesejáveis feras mentais.


Não duvido – ao contrário, estou bem seguro -  de que no final deste trabalho escrito eu estaria incorrendo em um exagero se estendesse os meus enfoques do mau comportamento mental e psicológico a todos os seres humanos; além do exagero eu estaria pondo de manifesto um acentuado desequilíbrio no juízo dos valores. Felizmente, e para a satisfação da nossa espécie, são incontáveis as pessoas de bem, educadas, probas, cultas, honradas, inteligentes, de elevado comportamento ético e que formam a grande reserva moral da humanidade.


Mas, as dificuldades de reconhecerem a existência das deficiências e propensões psicológicas em si mesmas são iguais às existentes em qualquer ser humano – cultos ou incultos –, a diferença só existe nos comportamentos éticos.


A Logosofia – uma especialidade científica do comportamento humano – criada pelo pensador argentino González Pecotche, nos ensina a realizar o Processo de Evolução Consciente, que implicitamente se traduz no Conhecimento de Si Mesmo, aonde vamos conhecer e aprender uma técnica para investigar, identificar, selecionar, bloquear e eliminar a existência de 44 deficiências e 22 propensões psicológicas, no total de 66 feras mentais, menores e maiores, que habitam o nosso bosque mental com o nosso inconsciente consentimento, preparadas todas elas para dar o seu bote a qualquer momento de descuido do nosso comportamento.




Mudanças Revolucionárias em Si Mesmo




MUDANÇAS  REVOLUCIONÁRIAS  EM  SI  MESMO

por Hélio Cannizzaro



Se utilizarmos um breve momento para uma análise de que foi necessário o transcurso de muitos e muitos séculos para que a raça humana se libertasse da vida primitiva em que predominavam o estado selvagem do homem, a voracidade das feras e a inclemência de fenômenos adversos e hostis à sobrevivência humana, compreenderemos melhor o extenso e laborioso processo que os nossos antepassados tiveram que se adaptar e realizar para permitir que as gerações que foram se sucedendo conquistassem o gigantesco progresso técnico-científico-material que hoje desfruta a humanidade.


O homem, inquieto por natureza, ao longo de muitos séculos, explorou terras e conquistou espaços, superou todos os desafios que pôde em ciências, descobrimentos, inventos, técnicas e profissões; criou e desenvolveu culturas, educação, literaturas, idiomas, filosofias, religiões, artes e poesias; pisou na Lua e chegou ao planeta Marte; descobriu os segredos da energia nuclear fabricando com ela armas poderosíssimas que põem em risco a sua e a existência do planeta, mas a grande e imensa maioria dos humanos não descobriu o caminho que os conduziria identificar, compreender e realizar o principal e universal objetivo da vida humana.


Reflexos inequívocos da cultura geral vigente nos levam a indagar o que é que todos nós temos assistido e comprovado desde o início do século XX até os dias de hoje do século XXI ?    O totalitarismo entre as grandes nações do mundo; as intermináveis guerras mundiais; a ameaça permanente da bomba atômica e outros artefatos; o terrorismo como engendro maligno, violento e cruel, espalhando o pânico, a dor e ceifando vidas inocentes; os ódios e rancores milenares disseminados e sustentados pelos dogmatismos religiosos; a destruição de conceitos e valores essenciais à vida humana; a desagregação familiar e social; um espantoso número de pessoas buscando agasalho no subjetivismo, na anti-razão, na anti-ciência, no surrealismo e nas drogas, desprezando tudo que é certo e bom e submergindo-se numa abulia mental e psicológica suicida, deixando um rastro visível de que a nossa cultura apresenta em muitas partes sinais inconfundíveis de uma decadência.


Teria o nosso estimado leitor (a) se dado conta de qual é o principal e universal objetivo da vida humana? Teria consciência científica de que já o identificou e o realiza em seu viver diário?


Recorramos à palavra sábia do pensador e cientista argentino Carlos Bernardo González Pecotche, criador da ciência humana “Logosofia” que nos convida realizar o “Processo de Evolução Consciente” para alcançarmos o conhecimento da nossa própria psicologia, descrevendo no seu livro “O Mecanismo da Vida Consciente, pg. 64, 3a edição, 1979”, o complexo psicológico do ser humano.

“Desde os dias da infância até os de sua velhice o homem debate-se em um mar de contradições sem saber a ciência certa onde está o verdadeiro e o falso. A vida é para ele uma perpétua interrogação; e se interrompe a busca de conhecimentos, submerge-se na penumbra, ligando-se à vida vegetal pela imobilidade de suas faculdades, ou melhor ainda de seu entendimento superior, quando não à vida animal pela semelhança que alcança com essa espécie quanto à indolência, à indiferença ou ao parasitismo de suas funções mentais. Uma grande porção destes seres, ainda quando não sabem com certeza para onde dirigir seus passos, sentem dentro de si uma inquietude que os impele a prosperar nas ordens conhecidas da vida. Encaminham, a princípio, seus objetivos para a conquista de folgadas situações no setor econômico e social, sendo escassíssimo o número dos que vislumbrando ou intuindo possibilidades maiores para o seu entendimento, elevam com tal critério suas aspirações em busca de outros destinos”.


Até 1930 – quando o pensador González Pecotche criou a ciência Logosofia – todo avanço cultural, mental, moral, psicológico e espiritual circunscreveu-se à órbita externa do ser humano. Por isto o homem voltou-se sempre para fora, não lhe sendo ensinado como fazer para adentrar-se em si mesmo, que é prerrogativa exclusiva das energias do seu privativo mundo interno.


À exceção de milhares de estudantes da nova ciência que frequentam as sedes das escolas de Logosofia e de outros milhares de estudiosos e interessados existentes no mundo inteiro e que há 80 anos vêm aprendendo e praticando a técnica logosófica do conhecimento de si mesmo, toda a grande massa da humanidade ainda desconhece a realidade revelada pela ciência de González Pecotche de que os conhecimentos comuns não têm poder para penetrar no nosso mundo interno – que é fonte exclusiva e permanente de todas as ideias e pensamentos superiores e transcendentes que fecundam a vida humana.


Porque os conhecimentos comuns (é comum a todos) da nossa cultura geral não se revelaram capazes de conduzir o ser humano numa viagem explorativa dentro de si mesmo? Porque ela é inferior? Porque é materialista? Porque é fria e utilitária? A resposta é simples: a cultura vigente não é específica para permitir uma realização humana de tamanha magnitude. Uma pessoa pode ser um excelente profissional em qualquer área, um artista, um poeta, escritor, escultor, inventor, etc., ser bom filho, dedicado esposo e pai, amigo, culto, educado, honesto, generoso, trabalhador, e prisioneiro de deficiências psicológicas (defeitos do comportamento) como a impaciência, a intolerância, o rancor, a impulsividade, a inibição, a verborragia, a indiscrição, a indolência, a vaidade, etc. e nenhum dos seus conhecimentos profissionais ou de sua cultura geral é capaz de ensiná-lo como fazer para identificar em si mesmo as imperfeições incrustadas na sua psicologia e muito menos como livrar-se delas.


Todo ser humano crê – com as ressalvadas e honrosas exceções – de que é o comandante-único da sua vida, mesmo mantendo-se alheio e indiferente ao conhecimento da estrutura da sua constituição mental e psicológica e não raro cometer erros que nada têm a ver com o seu querer ou com a sua inteligência. Isso nos mostra que se cometemos erros sem a participação da nossa vontade ou da nossa razão, significa que temos um comando interno paralelo, arbitrário e dissimulado, que manda mais na nossa vida do que nós mesmos que dela somos o dono.


A original e singular descoberta da realidade extrafísica dos pensamentos por González Pecotche como seres vivos, personagens ativos, autônomos, que passam de uma mente à outra numa fração de segundo, invisíveis aos olhos do entendimento não preparado, que podem desenvolver atividades positivas e negativas independentemente do nosso querer e da nossa inteligência, revelam que os pensamentos estão por detrás de todas as boas e más ações do homem, existem e atuam como agentes-causais de todas as formas de vida humana.


Eu já fui ioiô do pensamento-deficiência do rancor; marionete da impaciência; peteca da impulsividade; chocalho da intolerância; títere da irritabilidade e outros joguetes de muitos pensamentos negativos, sem me dar conta ou pelo menos suspeitar que eles existiam na minha psicologia e compartilhavam livremente do comando da minha vida.

 Pelo que vimos expondo, admitimos que o nosso leitor (a) além de já estar consciente de qual é o principal e universal objetivo da vida humana está também consciente de que para realizá-lo é indispensável desenvolver um processo de mudanças do próprio comportamento.
 A nova ciência nos ensina identificar em nós mesmos dois imensos e distintos mundos: - o interno e o externo. Até aqui o homem só cuidou do seu mundo externo, traduzido nas suas realizações mentais, intelectuais, físicas, profissionais, estéticas, materiais, etc., mantendo-se alheio ao seu mundo interno que, mesmo repetindo de forma redundante, está dentro dele mesmo, estático e inexplorado em suas riquezas, ignorando-o como fonte de pensamentos e ideias superiores e transcendentes capazes de promover “Mudanças Revolucionárias em Si Mesmo”, mas não revolucionárias com as armas da violência, senão com as da ciência, da inteligência e da persuasão.
 

A Logosofia é uma ciência-coadjuvante que nos ensina a realizar o Processo de Evolução Consciente para conquistarmos o Autoconhecimento, restituindo-nos as rédeas do comando da nossa vida até então compartilhada pelas nossas ignoradas deficiências psicológicas e supostamente inexistentes pela nossa frágil e despreparada percepção.

CULTURA    e    CIÊNCIA
                                                                                                                              por  Hélio Cannizzaro
                                                                                                                    heliocannizzaro@gmail.com


Levei um bom tempo para compreender e associar ao meu comportamento uma diretriz do método da ciência humana “Logosofia”, aqui reproduzida:


“Em geral o ser humano ignora que, além da instrução que recebe ― compreendendo até a mais esmerada educação e ilustração que é possível obter na Universidade em matéria de especialização técnica e científica —, existem uma cultura e uma ciência cujos conhecimentos, não sendo semelhantes aos que se ministram nos centros oficiais de estudo, têm de ser adquiridos fora deles, pelo esforço pessoal e dedicação intimamente estimulados e postos a serviço de um ideal cuja concepção escapa às considerações e juízos correntes”.  (Do Livro, Logosofia, Ciência e Método, 3a Edição, pg. 21, 1980). 

A minha dificuldade tinha origem no meu inveterado hábito de encarar qualquer leitura ou estudo sempre de forma extraindividual, ou seja, como ilustração intelectiva, literária, técnica, profissional, utilitária ou especulativa.

Para uma melhor análise da dificuldade da qual eu era prisioneiro, ofereço a minha própria experiência: antes de conhecer a nova cultura e a ciência experimental criadas pelo pensador e cientista argentino Carlos Bernardo González Pecotche (1901 / 1963), eu não me dava conta que fazia parte integrante do meu temperamento – entre outras ainda não identificadas – uma deficiência psicológica (defeito, no conceito corrente), de velhas raízes e de índole arbitrária, que me levava a me comportar repetidamente de forma irrefletida, precipitada, fora de tempo e sem medida, desestabilizando a minha serenidade mental e diminuindo a minha paz interior, classificada pela Logosofia com o nome de “impulsividade”.

Inicialmente, li os livros “O Mecanismo da Vida Consciente” e “Exegese Logosófica”, adquirindo uma razoável ilustração sobre a nova ciência, mas muito pouco ou quase nada eu experimentei ou apliquei os seus princípios e ensinamentos à minha própria vida, como recomenda o seu método psicodinâmico. Ao final de um breve tempo constatei que antes de conhecer a Logosofia eu era uma pessoa “impulsiva-não-ilustrada”; após a leitura dos referidos livros passei a ser uma pessoa “impulsiva-ilustrada”.

Obviamente, este não é um dos objetivos desta nova cultura e ciência do aperfeiçoamento do comportamento humano. A conquista de uma ilustração sobre qualquer tema ou assunto e o enriquecimento intelectual buscado na cultura geral vigente hierarquiza o ser humano sem qualquer vestígio de dúvidas, mas essas reconhecidas e valiosíssimas realizações são de índole e de usos diferentes se comparadas com o que concomitantemente podemos obter aprendendo a realizar cientificamente o “Processo de Evolução Consciente” ensinado pela Logosofia – o que implicitamente significa o Conhecimento de Si Mesmo – ao abrir as portas do nosso mundo interno e nos capacitar para descobrirmos as riquezas nele existentes e com elas promovermos uma ampla e integral reforma da nossa vida, em parte escravizada por muitos conceitos inadequados, por antigos preconceitos ou por velhos dogmas que turvam a nossa vista e nos impede enxergar as virtudes e a originalidade dos conhecimentos desta ciência experimental.

Houve um período da minha vida que eu interpreto, de um lado , com uma fugaz jocosidade, e, de outro, com um discreto pesar, e que consistia em que eu especulava com a compreensão de que nós humanos, indistintamente, éramos portadores de virtudes e defeitos, mas, na prática, científica e conscientemente, eu nunca consegui identificar uma só ou única deficiência (defeito) no meu comportamento, e não perdia a oportunidade de exaltar as minhas reais ou supostas virtudes. Vivia, assim, em relação a mim mesmo, uma vida inconsciente e alheio à minha verdadeira realidade interna, suportando docilmente um cativeiro mental e moral imposto pela tirania das minhas ignoradas deficiências e propensões psicológicas, que sub-repticiamente sustentavam um governo interno, paralelo e dissimulado, capaz de iludir ainda ao mais astuto ou paralisar a percepção inteligente do mais culto e mais sabido dos homens.

À medida que intensifico os estudos da Logosofia aperfeiçoando a técnica na aplicação dos seus princípios e ensinamentos à minha vida, vou girando a luneta da minha observação para um lado e outro e não tem sido difícil comprovar o incontável número de pessoas que estão na mesma situação em que eu me encontrava, não se constituindo o meu caso um fato isolado ou um traço defeituoso do meu caráter nem tampouco interpretado como uma realidade universal, mas nem por isto deixa de ser visível aos olhos do entendimento do bom observador que a evolução humana no plano não-físico ou imaterial – no enfoque desta nova ciência – tem sido mal conduzida e muitas vezes pior continuada, o que fortalece ainda mais o descompasso existente entre a evolução do plano físico-material com os seus gigantescos avanços e a indiferença e o abandono em que o homem tem tratado a sua vida psíquica e espiritual, sendo o único ser vivente da Criação dotado de inteligência e sensibilidade.

Não há negar que o homem tem conseguido com esforço próprio conquistar uma vasta ilustração e colocar-se entre os que se destacam nas letras, na intelectualidade, nas profissões, na política, nas finanças, nas artes e em todos aqueles ramos do saber comum, mas se mantém alheio e muito distante da original descoberta revelada pela ciência Logosofia desde 1930 sobre a natureza extrafísica dos “pensamentos”, definidos como entes-psicológicos, dotados de vida própria, autônomos, que podem ter atividades dependentes e independentes da nossa vontade e da nossa razão, que passam de uma mente à outra numa fração de segundo, e que, sem que nós percebamos, compartilham do comando da nossa vida, ora nos conduzindo para os acertos e ora nos induzindo ao cometimento de erros contra nós mesmos ou em desfavor dos nossos semelhantes.

Conclusivamente, e sem dar rédeas soltas ao exagero e ao pessimismo, é factível comprovar que os nossos acertos vão se convertendo em argamassa para cimentar as nossas virtudes que enobrecem a nossa vida, hierarquizam os nossos bons e úteis pensamentos (entes-psicológicos vivos), desenvolvem a nossa sensibilidade e ampliam o nosso entendimento para assimilar e praticar os dinâmicos e revolucionários conceitos da nova cultura criada pelo educador e humanista González Pecotche.

Os nossos erros materializam a escória dos nossos deslizes que aviltam a nossa vida, paralisam a nobre função de pensar, endurecem os nossos sentimentos e podem nos introduzir nos corredores cinzentos das decepções, do ceticismo e do inconformismo, mas poderão também ser fundidos no crisol das nossas positivas realizações mentais e morais se nos aprestarmos em sermos donos e timoneiros conscientes da nossa própria vida e não um ser estranho à nossa natureza física-psíquica-espiritual.

Esse é o primeiro encontro da nossa realidade interna com as verdades espalhadas na Criação e com a inexorabilidade das Leis Universais.

Esse encontro – o mais significativo para o despertar da nossa consciência – é visto pelas lentes óticas da Logosofia como o menos estudado da vida humana pelo homem porque, por ignorância ou por inércia mental e volitiva, se deixa seduzir com facilidade pelos maus e inúteis pensamentos (também entes-psicológicos vivos) que o arrasta para os torvelinhos caminhos dos vícios, do desalinho moral, do desfrute de deleites efêmeros de um mundo quimérico ou, na melhor das hipóteses, pela dedicação única e exclusivamente da sua existência para as conquistas e interesses só materiais, desdenhando que a vida humana tem um conteúdo transcendente e metafísico e é nele onde estão esculpidas em relevo as respostas a todas às inquietudes e indagações formuladas pelo espírito humano desde os tempos em que vêm se apagando da nossa memória.