A Herança de Si Mesmo

"Os grandes homens que se destacam através das três épocas clássicas em que se divide a história humana, sempre foram reconhecidos grandes por seus pensamentos e por suas idéias quando, após titânica e firme luta, conseguiram mover a atenção e fazer com que se advertisse o bem que continham. Em quantas mentes penetrou a luz de seus pensamentos e idéias! Quantas foram fecundadas com a semente das extraordinárias concepções daquelas inteligências que puseram ali todo o poder de sua influência criadora".
Carlos Bernardo González Pecotche - Criador da Logosofia

terça-feira, 7 de agosto de 2012


O Homem:  Carrasco de Si Mesmo

por Hélio Cannizzaro



"Como se explica o fato de que, desejando o homem viver, por descuido ou por ignorância, vá matando gradualmente essa vida?

Um inimigo, que costuma penetrar dentro dele sem ser visto, é quem se encarrega de amargar-lhe a vida e de fazer com que ela se debilite, perca força e até sucumba, se não ocorrer a tempo uma reação. Esse inimigo se chama descontentamento. (González Pecotche, Coletânea da Revista Logosofia, Tomo II, 1980, pg. 253)".



Não foi uma, não foram duas, mas algumas vezes que eu vi e ouvi um semelhante meu auto-elogiar-se de que é portador desta ou daquela virtude, de que vive uma vida sincera, honesta, voltada para a construção do bem, incapaz de fazer mal a quem quer que seja e no entanto experimentar  um descontentamento que lhe produz um vazio interno que não é preenchido pela experiência e pelos conhecimentos adquiridos com o seu modo de viver, nem pelo desfrute de comodidades proporcionadas pelos recursos que tem e, às vezes, até enfastiado das diversões, das normas de etiquetas ou de prazeres mundanos.

O presente trabalho escrito tem o propósito de formular algumas reflexões retiradas dos nossos estudos, investigações, experimentos e aplicação dos princípios e ensinamentos da ciência humana de nome "Logosofia", criada pelo pensador e educador argentino Carlos Bernardo González Pecotche, a fim de que quem tenha interesse em investigar e se certificar se o descontentamento é seu hóspede eventual ou permanente e como fazer para ajuizá-lo, sentenciá-lo e ditar-lhe a pena de morte.

Para colaborar nesta humana e delicada tarefa González Pecotche indaga e considera: "O que é que cada um quer sem tê-lo pensado? Viver. Ninguém pode negá-lo. Todos, ainda que não pensem nisso, todos querem viver. Por que? Por que o ser gosta tanto dessa vida que quer conservar? Porque sente, no mais íntimo de si, esse algo terno, tão grande, quando por um instante é consciente de que vive. Nesses momentos, não sente ele uma alegria indescritível? Não sente tristeza quando está doente e alegria quando recupera a saúde, a saúde que traz a vida, a vida que traz o motivo da existência neste mundo? Então, porque o descontentamento? Contra quem? Contra si mesmo? Há motivos para tê-los em relação aos demais?"

Para facilitar a nossa tarefa e compreender bem o que é o descontentamento visto através das luzes científicas da Logosofia, é indispensável que realizemos um cuidadoso exame de nós mesmos, do que "somos", do que "poderemos ser"  e principalmente a quem nós devemos a nossa própria "razão de existir".

Ainda que não sejamos melhores observadores do nosso próprio comportamento mental e psicológico, todos nós temos a prerrogativa de fazer uma análise retrospectiva da nossa própria vida e identificarmos a forma como fomos criados e educados para chegarmos a ser o que somos.

Na generalidade, podemos constatar que desde a nossa mais tenra idade nos foram inculcados muitos preconceitos, crenças sobre fatos, coisas e idéias que cada um de nós hoje defende ou adota como norma de conduta. Não devemos deixar de considerar que muitas crenças e preconceitos nos foram inculcados pelos nossos pais e pelos nossos professores com a maior boa fé em nossa infância, período o mais acentuado da nossa insipiência mental e psicológica em que a reflexão não intervém para distinguir o que é certo e o que é errado.

Ainda dentro dessa mesma generalidade podemos também constatar que uma expressiva maioria, prisioneira de uma permanente inércia mental, aceita de forma dócil e mansa dar continuidade a muitos preconceitos - alguns com idade de mais de dois mil anos - sem inquirir severamente os equívocos ou enganos contidos em muitos deles que não só inibem o exercício da nobre função de pensar como também não resistem à menor análise sensata da razão humana.

Depois da infância passamos pela adolescência e juventude e chegamos à idade adulta ocupados com a formação da nossa cultura pessoal e profissional, mas quase que invariavelmente indiferentes ou alheios a um conceito claro e preciso sobre o principal e universal objetivo da vida humana e assim entramos às cegas num mundo conturbado e cheio de contradições e a partir daí nos ocupamos exclusivamente do nosso ser físico, da nossa figura estética, da nossa educação e cultura refinadamente condicionadas e dirigidas para a vida externa, buscando a exaltação do nosso conceito pessoal diante dos demais, sem nos darmos conta do crescimento oculto das nossas deficiências e propensões psicológicas, dotadas de vida própria e autônomas que por ignoradas e não combatidas e eliminadas, abrem espaços em nossa mente para acolhermos o descontentamento.

Até aqui esboçamos, em traços gerais, o que "somos" como seres humanos em relação íntima e direta com o comportamento individual, senão de todos, pelo menos de uma significativa parcela da sociedade humana.

Adiante, vamos esboçar o que "poderemos ser" se nos dispusermos fazer ciência em nossa própria vida, constituindo-a em campo experimental para realizarmos o Processo de Evolução Consciente  que a ciência Logosofia oferece e ensina a todos os seres humanos que, vislumbrando ou intuindo possibilidades maiores para os seus entendimentos, cultivam sadias aspirações em busca de outros destinos.

Como primeira lição, o iniciante na ciência Logosofia toma contato com uma realidade até então por ele desconhecida: a da existência em si mesmo de um mundo interno próprio, não físico - tão real como o mundo externo-físico - dotado de uma constituição mental, sensível, instintiva e psicológica e integrada de sistemas e mecanismos de funcionamentos espontâneos.

Em seguida o iniciante toma contato com uma outra realidade que o surpreende ao observar uma série de experiências que já viveu e ao tomar contato com as concepções da Logosofia se deu conta de que durante muito tempo foi joguete de muitos pensamentos que governavam a sua mente e exerciam uma influência decisiva sobre o seu caráter, concluindo não ter sido o comandante-único do seu mundo interno, conquanto sendo ele o seu único dono.

A exemplo do que ocorre no mundo externo-físico, povoado de seres humanos de bom e de mau comportamento, o mundo interno é povoado de pensamentos bons e úteis e de maus e inúteis. O Processo de Evolução Consciente conduz o iniciante a efetuar um rigoroso e sereno estudo dos pensamentos, selecionando os úteis e combatendo e eliminando os inúteis que prejudicam a própria conduta ou entorpecem o livre desenvolvimento das faculdades mentais no esforço de superação, organizando a vida sobre bases diferentes, mais sólidas e mais bem dispostas.

Uma lição didática e pedagógica para o iniciante é que o significado do vocábulo "pensamento"  não é o que está impresso e expresso nos dicionários da nossa língua, mas o que a ciência Logosofia atribui ao descobrir que ele é um "ente-psicológico, um ser, um personagem da vida mental", que se gesta, nasce, cresce, adquire vida própria e autonomia suficiente para nos induzir ao cometimento de erros de forma invisível aos nossos próprios entendimentos.

O prezado e arguto leitor (a) já deve ter percebido que a Logosofia nos convida realizar um estudo pleno da nossa psicologia, ressaltando que esse estudo deve ser pleno, ou seja: caráter, tendências, pensamentos, idéias, qualidades, defeitos e tudo quanto direta ou indiretamente entra nos domínios das nossas faculdades mentais e sensíveis e contempla os estados do nosso espírito.

Não se trata, pois, de obter uma ilustração a mais nem tampouco de um medroso mergulho na superfície da nossa psicologia, mas de percorrer uma extensa e penetrante excursão explorativa dentro de nós mesmos para descobrirmos as riquezas entesouradas em nosso mundo interno e com elas construirmos - com o auxílio e orientação dos princípios e ensinamentos da ciência de González Pecotche - uma nova vida em que mudarão os conceitos das coisas, mudarão as atitudes e principalmente a nossa conduta que nos permitirá compreender mais amplamente que devemos ao nosso Criador a "razão do nosso existir" e que somos os únicos seres viventes deste mundo dotados de inteligência e consciência para identificarmos, combatermos e eliminarmos o descontentamento do nosso mundo interno, evitando nos tornar o próprio "carrasco" das nossas mais justas e nobres aspirações de Bem.


quarta-feira, 9 de maio de 2012


O Conhecimento de Si Mesmo (II)

por Hélio Cannizzaro


“A vida, o mundo, tudo é um mistério para o homem indiferente e desprovido de conhecimento, a quem pouco interessa desentranhar a verdade do futuro. Por isso, vive descuidado, e sua vista, nublando-se, não percebe a distância. Não acontece isso com quem se consagra ao conhecimento que anima a  existência da Criação.

O porquê da vida é um labirinto que cada um deve percorrer para encontrar a si
mesmo. Quem pretenda percorrê-lo seguindo seus caprichos, na presunção de

conhecê-lo, com toda a certeza se extraviará. É necessário conhecer profundamente
esse labirinto, mediante o processo de evolução que se realiza seguindo rígidos

princípios e normas que se baseiam na experiência, enquanto a inteligência extrai
deles e do estudo dos fatos o saber verdadeiro, para resgatar a alma, acorrentada

às misérias do mundo.
(Destaques do livro Coletânea da Revista”Logosofia", Tomo III,

pg. 183, 2010, de Autoria de Carlos Bernardo González Pecotche).
 

O pensador e cientista argentino Carlos Bernardo González Pecotche (1901–1963), criador da ciência humana “Logosofia”, no texto retro transcrito, afirma que “o porquê da vida é um labirinto que cada um deve percorrer para encontrar a si mesmo”.

Quem estiver convencido de que vive uma vida divorciada de si mesmo e com frequência  comete erros que lhe trazem contrariedades, desgostos e padecimentos, está em boas condições de compreender que necessita realizar um processo de evolução consciente, seguindo rígidos princípios e normas que se baseiam na experiência.

Esse processo de evolução consciente o criador da ciência Logosofia oferece-o através do seu método psicodinâmico e de uma técnica experimental-individual que habilita o homem para alcançar o tão sonhado desiderato do “Conhecimento de Si Mesmo”, apregoado pelo ilustre filósofo grego Sócrates (470–399 a.C.) mas só agora, depois de quase 2.500 anos a Logosofia converteu em realidade.

Para realizar esse processo de evolução o criador da Logosofia adverte:

Para empreender tarefa de tão vastos alcances não se deve ignorar tudoquanto
 concerne à própria constituição psicológica-mental, e, além disso,
cumpre conhecer profundamente o mistério dos pensamentos; mistério
que deixará de sê-lo tão logo a inteligência atue sobre eles e os faça servir

aos propósitos de uma cabal superação, isto é, desde que o ser esteja
capacitado para proceder a um reajustamento consciente e efetivo da sua vida.”


É muito difícil – para não dizer impossível -, que nós humanos, ignorando a original e inédita descoberta da ciência Logosofia ao apresentar os pensamentos como seres-vivos-extrafísicos, que na mente se gestam, nascem, crescem, vivem, desenvolvem atividades dependentes e independentes da nossa vontade e da nossa inteligência, que num instante passam de uma para outra mente revelando vida própria e autonomia, possamos comandar a nossa própria vida com lucidez e acerto e fazermos dela uma "obra-mestra", mercê do constante aperfeiçoamento das prerrogativas que o Criador estabeleceu com total reservas para a raça humana.

A experiência tem demonstrado que os pensamentos positivos obedecem ao comando da nossa vontade e acatam as diretrizes da nossa inteligência enquanto que os pensamentos negativos - em sentido inverso  - subestimam a nossa vontade e nos submetem, dócil e mansamente ao comando deles, pois costumam ser mais fortes do que a nossa vontade e inteligência.

Eu também não fui excluído do desconhecimento dessa inusitada e perversa realidade interna. Antes de abraçar os estudos e os experimentos da ciência Logosofia, eu me deixava seduzir por uma falsa visão de que os pensamentos negativos – que representam as deficiências e propensões psicológicas – como a impaciência, a intolerância, a irritabilidade, a petulância, o rancor, a impulsividade, o ressentimento, o ódio, a obstinação, o egoísmo, etc., existiam sim nas pessoas dos meus vizinhos, nos meus familiares, nos meus companheiros de trabalho, enfim, nos meus semelhantes, mas nunca em mim mesmo, e, paradoxalmente, mesmo reconhecendo por palavras ter os meus defeitos, na prática eu não sabia da existência de um só deles no meu comportamento, consequência natural do meu desconhecimento do que acontecia dentro do meu mundo interno.

A cômoda posição de filosofarmos sobre nós mesmos de que não é necessário estudar o próprio comportamento sob as luzes da ciência porque o que sabemos já é o suficiente para sustentar uma existência sem atrativos superiores ou transcendentes, é o que tem impedido que nós nos conheçamos a nós mesmos, pois se eu parto do pressuposto de que não sou portador da deficiência psicológica da vaidade; da inveja, nem pensar; da presunção, muito menos, e, da falsidade, Deus me defenda, eu estou fechando o único canal que poderia me conduzir ao encontro de algum rastro ou vestígio desses indesejáveis e traiçoeiros hóspedes mentais.

Quando uma criança atende o telefone e diz para o seu pai que é fulano de tal e recebe ordens para dizer que ele não está, o que é que o pai está praticando: um exemplo de boa conduta ou uma falsidade? Mas, o comum é que quem assim se comporta não enxergue que acabou de alimentar uma deficiência psicológica porque o desconhecimento da sua vida interna permite a livre atividade das deficiências. Noutra via, o pai está ensinando ao seu filho a mentir; e quando o filho mentir para ele, é comum o pai alterar-se e de forma áspera e impiedosa perguntar ao filho quem foi que o ensinou a mentir?

As dificuldades de reconhecermos a existência das deficiências e propensões psicológicas em nós mesmos são iguais às existentes em qualquer ser humano – cultos ou incultos -, a diferença só existe nos comportamentos éticos.

O homem inculto, porque é ignorante e vive num ambiente onde a moral é vista com desprezo, dá guarida em sua mente a uma deficiência psicológica de nome “rancor”, não tendo recursos psicológicos e intelectivos para eliminá-la da sua psicologia.

O homem culto, que também dá guarida à mesma deficiência, tem recursos psicológicos e intelectivos – às vezes, até de sobra – mas os seus conhecimentos não são específicos para serem usados na investigação, na identificação, no combate e na eliminação de uma deficiência que corrói os nossos sentimentos, submergindo-nos na escuridão nociva da indiferença, e ainda nos condena a uma prolongada tortura e nos faz prisioneiros perpétuos de um comportamento psíquico que nos impede desfrutar de um bem-estar permanente.

A Logosofia – uma especialidade científica do comportamento humano – criada pelo pensador e humanista argentino González Pecotche nos ensina a realizar o Processo de Evolução Consciente, que implicitamente se traduz no “Conhecimento de Si Mesmo” aonde vamos conhecer e aprender uma técnica para investigar, identificar, selecionar, bloquear e eliminar 44 deficiências e 22 propensões psicológicas, no total de 66 imperfeições humanas, que habitam o nosso mundo mental ou que poderão habitá-lo com o nosso inconsciente consentimento, preparadas todas elas para a qualquer momento nos usar como veículos dos seus impulsos e tendências deletérias.



Vídeo no You Tube (“O Mais-Aquém x O Mais-Além”): http://youtu.be/40tAWg2UiaY



O  SER  HUMANO  VIVE  AMARGURADO

(Causas de sua Tristeza)

por Carlos Bernardo González Pecotche

Criador da ciência “Logosofia”

Se observarmos o quadro psicológico do ser humano, fácil será descobrir que ele é por natureza triste.

Uma série de circunstâncias que o privam de experimentar a sã alegria de compreender a vida e realizar sua alta finalidade, faz com que ele viva constantemente amargurado.

Foram investigadas as causas? Foram adotadas providências que propiciassem um destino melhor para a consciência humana?

Pensamos que não, já que a humanidade continua tão ignorante como antes, e seu destino comum, salvo as raras exceções em que alguns poucos superaram seus semelhantes, é o mesmo.

Analisemos, portanto, as possíveis causas que contribuem para a sua tristeza.

A criatura humana, desde muita tenra idade, vai cometendo uma série de erros que lhe trazem contrariedades, desgostos, padecimentos, etc., os quais insensivelmente se vão acumulando em seu ser, provocando-lhe, sem que o perceba, uma espécie de amargura que ele não entende nem pode definir. Daí que toda alegria que experimente por uma ou outra causa seja fugaz.

Fazendo cada um seu próprio balanço, constatará que as atuações errôneas são em maior número que os acertos. Nessas condições, não podem ser experimentados os naturais benefícios de uma existência feliz: a consequência do erro ou da falta é sempre ingrata para o espírito.

Se o homem se desse o trabalho de realizar uma estatística comparativa de sua vida no que diz respeito à linha seguida através de suas horas de alegria, felicidade e sossego, e através das de angústia, sofrimento e desespero, observaria sem maior dificuldade que estas últimas, numa grande porcentagem, são a maioria.

Os sedimentos da dor não se extinguem tão facilmente; ao contrário, agravam-se toda vez que o mal, aparentemente adormecido, é excitado por novos motivos de pesar, seja como consequência de outras faltas ou erros, seja porque causas anteriores reclamam seu tributo de dor.

A criança que, por desobediência ao conselho dos mais velhos, perde uma mão ou um olho, ou desfigura seu rosto ao provocar uma explosão, transforma sua vida adulta num amargo sofrimento, ao comprovar a infelicidade que isso lhe ocasionou. Posto este exemplo como princípio, não será difícil para cada um repassar as páginas de sua própria história e encontrar, seguindo a ordem das leis analógicas, uma quantidade de casos similares que, sem representarem para o físico a gravidade que apontamos na imagem exposta, têm para a compreensão uma importância vital, muito digna de ser levada em conta.

O truncamento de suas aspirações pela incapacidade própria de realizá-las; as limitações de seus recursos e as limitações próprias dos agentes condutores de seu esforço, que promovem os desagradáveis sintomas do fracasso; as contrariedades de toda ordem, somadas às exigências e necessidades da vida na luta diária para levar uma existência sadia, são outras tantas causas da amargura que invade a alma, enchendo os dias de tristeza e sofrimento, difíceis de afugentar.

Poder-se-ia alegar que esquecemos outra das causas de seu pouco ânimo, talvez aquela a que o comum das pessoas atribui maior importância – a econômica -, pois faz derivar dela grande parte de seus desgostos, seus estados de nervosismo e de constante exasperação. Efetivamente, há muito de verdade nisso; não obstante, insistimos que existem conhecimentos que suprem riquezas, da mesma forma que há aqueles que proporcionam alegrias inexpressáveis. O dinheiro, como tudo o que o homem possa possuir materialmente, é fugaz nas mãos de quem não sabe usá-lo para que sua vida seja útil e se afirme como uma existência feliz e digna.

Diremos, de passagem, que é bastante comum observar nas pessoas a tendência a recordar as horas de suas doenças e sofrimentos, omitindo, por outro lado, a expressão de suas alegrias e horas de felicidade. Com isso, inconscientemente, estendem a influência nociva daquelas, desde o momento em que, enquanto narram seus infortúnios, de fato voltam a amargar todos os seus momentos.

Não se pense, porém, que tal atitude provém do egoísmo humano, nem que se produz sempre por sugestão dos estados próprios de cada um. Deve-se atribuir isso, em muito, à mesquinhez corrente, pois com frequência quem expressa suas satisfações e seus triunfos é tachado de presunçoso e de alguém que faz ostentação, em detrimento de quem o escuta, menos feliz que ele, o que provoca uma reação, é claro que injustificada, de crítica e de desprezo. Como isso é sentido por todos instintivamente, ninguém se expõe a fazer um papel ridículo, relatando seus dias de felicidade para aqueles que teriam preferido, talvez, que lhes fossem narrados, os dias de desventura.

Voltando ao ponto principal de nosso tema, temos de fazer notar quão oportuno seria alguém dedicar-se a uma investigação tão transcendente como é a de buscar os meios para remediar esse curioso aspecto da psicologia humana. Os conhecimentos superiores, repetimos, proporcionam alegrias inexpressáveis. Alcançá-los com paciente, perseverante e consciente empenho, eis a chave para afugentar a desventura e as sombrias linhas dos rostos cobertos de decepção e de tristeza.

A Logosofia penetra no que há de mais profundo da alma humana e – como pode verificar o leitor – permite observar, à luz de um conhecimento vivo, o que acontece na pessoa, mostrando as causas de ela viver a maior parte de sua vida amargurada e sem que nada a mova para conhecer a origem dessa mortificação, a fim de combatê-la e eliminá-la, para desfrutar a existência, se não em toda a sua plenitude, pelo menos numa parte considerável.

Que grande passo terá sido dado quando os homens se dispuserem a colaborar, de forma decidida e definitiva, na obra de reconstrução da vida, como um magno objetivo, avançando unidos pela senda do verdadeiro conhecimento, que a nosso juízo é o único que conduz à superemancipação espiritual, extinguindo a ignorância e eliminando os erros, grilhões estes que são de inexorável rigor e que mantêm a pessoa oprimida numa penosa e deplorável escravidão.

(Republicação do artigo extraído do Livro “Coletânea da Revista Logosofia”, 1a edição, 2010, pgs. 71 / 73)

sábado, 7 de abril de 2012


Deus –  O  Supremo  Criador  de  Todas  as  Coisas

por Hélio Cannizzaro
 

v  “Não se enquadra na concepção logosófica que a criatura humana possa encerrar Deus numa estátua, numa casa, num país, num continente, num planeta – ou mesmo no Universo inteiro -, pois estima que tudo resulta limitado e estreito para as dimensões da sua Excelsa Imagem, inabarcável para a mente humana.” (González Pecotche).

v   “Vem ao caso perguntar: qual teria sido o objetivo perseguido por Deus ao pôr no mundo uma raça de seres, inteligentemente dotados, que o ignorassem e vivessem à margem da Criação Universal?.” (González Pecotche)


O pensador e cientista argentino Carlos Bernardo González Pecotche (1901-1963), criador da ciência humana “Logosofia”, apoiado nos seus aprofundados estudos e nos resultados obtidos das cuidadosas investigações científicas, concluiu que Deus é a Imensidão; é o Eterno; é a Suprema Ciência da Sabedoria e sendo a sua concepção única e inabarcável em virtude da sua dimensão cósmica, cada ser humano deva realizar esta Ciência da Sabedoria dentro de si mesmo na medida em que os conhecimentos adquiridos para esse fim permitam aproximar-se Dêle.


Isto significa dizer que a aproximação a Deus se dá pela posse de conhecimentos que podemos descobrir em cada um dos processos exatos da vida humana e da vida universal. Noutras palavras, Deus, - no conceito logosófico – é a imensidão, mas essa mesma imensidão se reduz simbolicamente ao formato da minha ignorância ou se amplia pela evolução que eu tenha sido capaz de acumular em meu ser interno – mental, moral, psicológico e espiritual, durante o meu existir neste mundo.


A Logosofia coloca Deus no ponto mais elevado enquanto nós humanos cometemos a estultice de reduzir a sua imagem num quadro emoldurado e pendurado numa parede; de uma gravação numa medalhinha presa a um trancelim colocado no pescoço humano como adorno ou numa escultura em que fica caracterizada a tentativa de materialização do abstrato – face oposta do concreto.


Para o vulgo, Deus se confunde com um parente mais próximo. O desrespeito e a  irreverência são de tal ordem que muitos acreditam privar da sua intimidade e sem qualquer cerimônia pedem tudo a Êle, inclusive ganhar nas loterias, fazendo todo tipo de promessas que nem sempre são cumpridas ou confiando cegamente que sempre serão atendidos nos seus insanos propósitos de vingança contra algum desafeto seu,  por pretenso direito ou suposta justiça.


Para as pessoas cultas e esclarecidas, que sempre cultivaram sadias inquietudes frente ao ignoto e intuíram que a vida humana não pode ser só o espaço compreendido do primeiro ao último dia do seu ser físico, Deus é visto e sentido pela fé ou no culto das inúmeras crenças, ritos e dogmas de origem milenar.


Há nessa postura mística de fé da alma humana uma visível e inaceitável submissão a Deus, construída e sustentada muito mais pelo temor e muito menos pelo amor – duas forças opostas que jamais se unirão – pois não há capacidade humana de amar a quem se teme.


No fundo, todos nós queremos ver decifrado o enigma de Deus e da vida humana sem perdermos jamais a esperança de encontrar uma palavra sábia ou uma explicação sensata que acalme a nossa inquietante ansiedade de nos identificarmos com o nosso Criador.


González Pecotche, educador, cientista e humanista, com notável sabedoria e lógica sobre esse tema controverso, esclarece:


“Destaco que se a Criação que nos rodeia e da qual formamos parte não é por si mesma, suficientemente eloquente para persuadir o homem de que a existência de Deus é inegável, muito menos poderá ser a palavra de um semelhante, por mais que se empenhe em demonstrá-lo.
 

Quando se afirma que Deus existe, é absolutamente necessário acompanhar tal afirmação com uma proposição desvinculada de qualquer ideia que o limite ou impeça de concebê-lo em sua imensidão, onipotência e infinidade. Partindo da base que a Causa Primeira é Deus e não tendo ao nosso alcance nenhum ser visível a quem se possa atribuir o ato da Criação Universal, é lógico que reconheçamos a Deus como Supremo Criador; mas a capacidade para considerar sua existência não depende dessa existência em si, senão da medida em que cada ser humano a reconheça, a sinta e a palpe individualmente.

Há duas coisas que são, sem dúvida alguma, inseparáveis, porquanto, constituem uma mesma e absoluta verdade: a Criação e seu Criador. Uma pressupõe a presença da outra, com toda a certeza; de maneira que se a Criação existe, o que nos consta porque a vemos, a palpamos e dentro dela vivemos, é impossível pôr em dúvida a existência de Quem, havendo-a concebido primeiro, plasmou-a depois em suprema realidade, ditando ao mesmo tempo as leis que mantêm seu equilíbrio e velam por sua conservação eterna”. (Do Livro: O Senhor de Sândara (pgs. 457-8).





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


Deficiências e Propensões Psicológicas

por Hélio Cannizzaro



Que outra coisa causa ao ser humano mais amarguras, violências e sofrimentos do que as suas próprias deficiências e defeitos? Não são estes os que provocam as reações na vida de relação? E se tais perturbações têm por consequência grandes perdas de tempo, ao distraírem a atenção e violentar o caráter, é lógico pensar que, com essas perdas de tempo, ocorridas, segundo observa a Logosofia, com enorme frequência, a vida se torna, em sua maior parte, estéril, improdutiva, e se chega ao final dela tendo dado continuamente passos para a frente e para trás, quer dizer, desandando uma e outra vez o trajeto percorrido. Em resumo, ter-se-ia permanecido sempre no mesmo lugar. É por esta razão que a Logosofia enfoca diretamente em seu cerne o grande problema, resolvendo-o, com a eliminação das já mencionadas deficiências. Por força da Lei de Evolução, o ser humano deve preparar-se para lutar e vencer no seu próprio terreno, onde deverá edificar, com conhecimentos inabaláveis, uma nova vida (Do pensador e cientista argentino Carlos Bernardo González Pecotche-1901/1963 e destaque do livro Coletânea da Revista Logosofia, Tomo III, 1a edição, 2010, pg.140)”.



Se cada um de nós nos dispuser realizar uma análise da nossa própria psicologia e nos perguntarmos quais são as deficiências (defeitos) e propensões psicológicas de que somos portadores e porque consentimos que elas compartilhem do comando dos nossos atos, dos nossos gestos, das nossas palavras, enfim, da nossa própria vida – quase sempre por um tempo bastante prolongado e muitas vezes consumindo a nossa vida inteira – sem sermos capazes de nos livrarmos da influência negativa delas?

Se a resposta que encontrei para o meu caso for igual ou semelhante à da maioria, todos nós poderemos afirmar, em voz uníssona, que a nossa cultura geral vigente – adquirida e usada sempre para fora de nós mesmos, de forma utilitária, – nos induziu desenvolver inconscientemente uma acentuada tendência de sermos muito mais preparados, intelectiva e psicologicamente, para enxergar os defeitos dos nossos semelhantes e extremamente indulgentes com as nossas falhas. Daí o desconhecimento da existência das deficiências e propensões psicológicas em nós mesmos, introduzidas em nossa psicologia pelos agentes do mal de forma não percebida ou inconsciente, como nos revelam as originais e inéditas descobertas do pensador e cientista Carlos Bernardo González Pecotche.

Com notável sabedoria e atilada observação, González Pecotche percebeu que a rotina dos conhecimentos e os sistemas usados para a formação dos estudos correntes não guardavam a mínima conexão com a vida interna do ser humano e, após cuidadosas e profundas investigações, encontrou o veio-do-ouro para o desenvolvimento de transcendentais conhecimentos concebendo a “Logosofia”, ciência humana, criadora e depositária de conhecimentos concretos para a vida, passíveis todos eles de realização individual ao serem aplicados conscientemente à própria psicologia.

Uma grande dificuldade inicial nesse processo de evolução é surpreender a nossa própria realidade interna tal qual ela é e não como nós – de escassíssimos conhecimentos específicos sobre a nossa própria psicologia – podemos supor ou imaginar que seja. Essa dificuldade provém da nossa cultura que nos induziu à tendência de sermos muito benevolentes com as nossas próprias falhas – como afirmamos momentos atrás – o que nos impediu desenvolver a sabedoria de caminharmos para dentro de nós mesmos, identificar as nossas imperfeições e conhecer os imponderáveis recursos que o nosso mundo interno custodia.

Do encontro com a verdadeira realidade interna que desconhecíamos surgirá a necessidade de modificá-la e é então quando a Logosofia, assinalando as etapas do processo a serem cumpridas, põe ao alcance do nosso entendimento e da nossa sensibilidade, os ensinamentos apropriados.

Não se trata de afirmar ou negar para nós mesmos as deficiências psicológicas que em maior ou menor grau afetam a estabilidade da nossa psicologia. A verdade é que nós, na prática, não sabemos quais as deficiências que temos porque nenhuma investigação científica ou estudo específico neste campo nos foi oferecido até aqui como o faz a Logosofia descrevendo 44 deficiências e 22 propensões psicológicas, num total de 66 imperfeições do comportamento humano, todas elas factíveis de serem identificadas e comprovadas em nós mesmos. E mais: nos ensinando uma técnica para identificá-las, bloqueá-las, combate-las e extirpá-las em definitivo da nossa psicologia.

Uma outra dificuldade que conspira contra o propósito de estudar a questão é a falsa sensação de que nos falta tempo, sem percebermos que são as nossas próprias deficiências que nos preparam esta armadilha porque a elas não interessa nenhum conhecimento, nem método ou técnica que sejam capazes de identificá-las e muito menos de expulsá-las do seu confortável “habitat”.

No desenvolvimento do meu processo descobri que também experimentava essa mesma sensação de não dispor de tempo para estudar quando me dei conta que, igual a todos os seres humanos, eu dispunha de 24 horas diárias ou de 10.080 minutos por semana.

A Logosofia me despertou para compreender esse desperdício de energia mental e psicológica, ou seja, eu tinha tempo para alimentar várias deficiências psicológicas que ignorava existir na minha psicologia e por esta razão faltava tempo para cultivar virtudes que são valores positivos e permanentes que sustentam a nossa moral, o nosso ânimo e nos distingue dos demais reinos da Criação.

O comportamento e as deficiências psicológicas dos nossos semelhantes já não nos atraem tanto como outrora porque vamos descobrindo com a realização gradual do nosso processo de evolução que são as nossas deficiências que nos trazem amarguras, contrariedades, ansiedades, decepções, descontentamentos, inconformismos, antagonismos, perdas de amizades, chegando a extremos lamentáveis de nos sucumbirmos nas trocas da nossa alegria pelas tristezas; da paz pelos conflitos; do amor pelos rancores; da docilidade pelas asperezas; do saber pelas credulidades; da modéstia pelas presunções; da serenidade pelas veemências; da humildade pela vaidade ou soberba; enfim, trocas perversas e desvantajosas comandadas não pela nossa vontade e inteligência, mas impostas pela tirania das deficiências psicológicas de que somos portadores, sem sequer suspeitarmos das suas existências e do mal que elas produzem em nossa psicologia.

Contrariamente a outras ciências humanas do ramo, que têm uma didática de caráter extraindividual, ou seja, os seus conhecimentos são adquiridos e sempre usados para fora do homem, a Logosofia conferiu às suas concepções e princípios um caráter intraindividual. Na linguagem logosófica isso significa dizer que os seus ensinamentos são sempre dirigidos para a vida interna do ser humano, isto é, o que aprendemos com os seus ensinamentos são para aplicarmos em nós mesmos e nunca em nossos semelhantes. Se contrariarmos essa regra pedagógica da Logosofia estaremos dirigindo na contramão do seu método psicodinâmico, com inevitáveis ou fatais trombadas para o nosso Processo de Evolução Consciente.

Os estudantes da ciência Logosofia são seres humanos normais e semelhantes a todos os normais existentes no mundo inteiro, com ideias, ideais, aspirações, sonhos, convicções, esperanças, desejos, ambições, virtudes e também são portadores de deficiências e propensões psicológicas. Não são seres humanos perfeitos, mas seres fazendo esforço para realizar um processo de evolução e aperfeiçoamento do próprio comportamento, desenvolvido concomitantemente às suas atividades normais e oferecendo exemplos de conduta para os seus semelhantes que resistem ou se recusam sacrificar o seu comodismo e continuar dando rédeas soltas à sua inércia mental e volitiva.

O que me distingue como estudante de Logosofia de outras pessoas não estudantes é que eu tive a feliz oportunidade de tomar contato com esta nova ciência e me despertei para uma realidade até então por mim ignorada de que a minha vida obedecia a dois comandos distintos: um comando orientado pelas energias da minha vontade e das diretrizes da minha inteligência (ações de pensamentos positivos), e outro comando, imposto de forma tirânica pelas minhas deficiências e propensões psicológicas (ações de pensamentos negativos-autônomos), que agiam de forma oculta ao meu próprio entendimento e com inúmeros disfarces que imitavam a perfeição.

Diante desta insuspeitada descoberta, eu, como aspirante ao saber logosófico, e por decisão própria, parti para uma luta aberta contra essa divisão de comando e subversão interna, consagrando-me à realização do meu Processo de Evolução Consciente orientado pelos ensinamentos desta nova ciência humana e me tornando mais um participante de um movimento científico, cultural e educativo, criado há 81 anos por González Pecotche em “Prol da Superação Humana”.

Qualquer pessoa normal é livre para adotar a mesma decisão, bastando para isso tomar contato com as concepções, estudando e praticando os princípios da ciência Logosofia através dos vários livros que formam a sua grande Obra Cultural e Educativa criada pelo pensador e cientista Carlos Bernardo González Pecotche, se assim for do seu desejo e ao me dispensar a sua amável atenção ao ler este meu trabalho.

Finalmente, cumpro um dever moral de alertar que a Logosofia não é uma teoria a mais; não faz promessas; não tem poderes mágicos ou sobrenaturais; não opera  milagres nem é uma panaceia para os problemas pessoais ou particulares de ninguém porque ela é ciência, é método, é técnica, é arte e cultura formativa e educativa, ensinando-nos a conduzir cientifica e conscientemente a nossa vida para um viver feliz e estendendo esta Dádiva Humana a todos os nossos semelhantes.




domingo, 8 de janeiro de 2012


Consciência  de  Vida
por Hélio Cannizzaro

 - Controle Consciente das Experiências Pessoais -
“Em geral, o homem não é consciente, na maior parte do dia, do que pensa e faz ou deixa de fazer, ou seja, não está atento ao que vai acontecendo dentro de si mesmo. Distrai-se com grande facilidade ou busca, desnecessariamente, motivos de distração. Por outro lado, descuida-se de muitas coisas que deveriam merecer sua atenção, essa atenção, consciente, que inclui o estudo de cada situação, a análise detalhada das circunstâncias que a criaram, a responsabilidade que lhe incumbe em cada caso, etc. Há quem age apressadamente, como se fugisse de si mesmo, e quem o faz com despreocupada lentidão. Teme-se o esforço que demanda o ato de pensar e frequentemente confia-se ao acaso a solução dos problemas. Afora os momentos de ócio ou de descanso, breves ou prolongados, a maioria procura amenizar ao máximo seu tempo em entretenimentos e diversões. Que consciência pode manifestar um ser humano que vive na forma descrita?” (Do pensador Carlos Bernardo González Pecotche e destaque do livro Curso de Iniciação Logosófica, 22a edição, 1995, fls. 26/7).
 González Pecotche, autor do texto que acabamos de reproduzir, após focalizar aspectos salientes do comportamento humano na sua generalidade, indaga que consciência pode manifestar uma pessoa que vive alheia na maior parte do dia do que vai acontecendo dentro de si mesma, acrescentando, ainda, que esta pergunta leva a definir o caráter ambíguo do seu comportamento que reflete não somente ausência de domínio de si mesmo, como também da falta de sentido a respeito da direção que deve imprimir à própria vida.

Para aqueles que não estão familiarizados com as concepções da ciência “Logosofia” não serão estranhas que as afirmações do cientista argentino González Pecotche possam produzir um misto de dúvidas e a sua imediata e espontânea exclusão do rol das pessoas que na maior parte do dia não estão atentas ao que vai acontecendo dentro de si mesmas.

Isto ocorre porque se tomarmos como base de observações a ilustração e a educação que recebemos desde tenra idade, teremos que admitir serem elas bastante deficientes. A raiz do problema está em nós mesmos que não fomos preparados para desempenhar a sublime função de pedagogos e de preceptores espirituais para educarmos melhor os nossos filhos. As gerações que nos antecederam foram também alvos de semelhante tratamento e não puderam, a seu tempo, nos transmitir uma herança de melhores ensinamentos. O nosso desamparo mental e sensível começa em nossa infância, prossegue na juventude e se estende até o final dos nossos dias se permanecermos alheios a esta realidade e não nos despusermos modificá-la.  

Não é difícil constatar na prática qual é o estado mental, moral e intelectual que apresenta o universitário depois de haver realizado todo um processo de ilustração teórica da sua inteligência. Ao se libertar das disciplinas universitárias comprova que não pode utilizar no ramo do conhecimento científico que escolheu como profissão uma boa parte do que foi compreendido e assimilado por meio dos estudos teóricos que cumpriu ao longo de muitos anos, porque referidos conhecimentos são incipientes e não são práticos.

Em outras palavras, isto significa dizer que o titular de um diploma universitário precisa de um mínimo de quinze a dezessete anos para cumprir as diversas etapas formativas da sua ilustração teórica e ainda de um período de adaptação no exercício da sua profissão cujo tempo – maior ou menor – não se pode fixar porque depende da suficiência do próprio profissional que terá que ampliar esse saber incipiente até provar a sua têmpera, a sua capacidade e a sua idoneidade.

Deixando de lado o profissional universitário e girando a nossa luneta para outros enfoques encontramos o profissional comum, o trabalhador, o poeta, o artista, o músico, o escritor, o comerciante, o industrial e tantos outros e vemos por detrás de todos eles o “homem”, essa figura cuja concepção é perfeita – como não poderia deixar de ser uma obra de Deus – que o fez superior a todos os seres viventes da Criação ao conceder-lhe a prerrogativa de ter duas naturezas: a física (terrena) e a extrafísica (mental, moral, psicológica e espiritual).

Na física (terrena) o homem realizou ao longo dos séculos um extenso processo de evolução construindo um gigantesco progresso técnico-científico-material buscado nos descobrimentos das ciências, dos inventos, etc. e traduzido nos avanços em todas as direções das atividades humanas. Na extrafísica (mental, moral, psicológica e espiritual) o homem está em visível descompasso com os progressos da sua natureza física.

E, porquê, esse descompasso nas trajetórias das duas naturezas se o Criador concedeu ao homem a mesma prerrogativa?

Muito já se escreveu e se falou sobre o comportamento que o homem deveria observar sobre si mesmo e também como integrante da sociedade humana. O que não foi escrito e falado até aqui foi sobre uma forma, um método ou uma técnica que o homem sempre intuiu existir e poder praticar, não só no sentido de conquistar o conhecimento da sua própria psicologia como também no de poder se orientar pela interpretação do seu próprio pensar e sentir, ao em vez de servir de veículo de ideias e pensamentos que terminam por fazê-lo prisioneiro de opiniões alheias sem qualquer transcendência e que constantemente ameaçam a sua integridade física, moral e espiritual, tornando-o inseguro, temeroso e vacilante diante de muitas situações adversas que surgem no curso da vida.

Ao ignorar a estrutura da sua constituição mental e psicológica, o homem crê, passivamente, que é possível comandar a sua própria vida com lucidez e acerto, passando por cima dos diversos sistemas, mecanismos e das leis regentes do funcionamento do seu mundo interno extrafísico, continuando inteiramente alheio a existência dos agentes-causais que estão por detrás de todas as boas e más ações do homem – o que permitiu o seu compartilhamento no comando dos atos humanos – e ainda acreditando que a cultura geral vigente – mesmo não sendo específica para esse fim – possa lhe oferecer os recursos didáticos e pedagógicos de que necessita para conquistar o conhecimento de si mesmo, o conhecimento dos seus semelhantes, de Deus e de suas Leis Eternas.

Esta subversão de valores tem origem na inexistência de “consciência de vida”, pois como nos esclarece e nos ensina o educador González Pecotche, todos nós, humanos, sem exceções, no mesmo instante em que saímos do ventre materno entramos neste mundo terreno às cegas, sem sabermos a ciência certa, onde está o verdadeiro e o falso e a partir daí nos ocupamos exclusivamente do nosso ser físico, da nossa figura estética, da nossa educação e cultura refinadamente condicionadas ao mundo externo-material, buscando a exaltação do nosso conceito pessoal diante dos nossos semelhantes, sem nos darmos conta do crescimento paralelo das nossas deficiências e propensões psicológicas, dotadas de vida própria e autônomas que, por ignoradas e não combatidas e eliminadas, nos condena à perda gradual da nossa individualidade, quando não somos absorvidos pela massa anônima dos que nada fazem para superarem-se como seres humanos, mesmo dotados de inteligência e sensibilidade.

O conceito logosófico de “consciência” difere notavelmente do conceito adotado pela generalidade humana. Para esta ciência, consciência, é algo mais do que uma simples expressão filosófica ou literária, quando lemos González Pecotche afirmar: “É uma realidade da qual está alheia a imensa maioria dos seres humanos; alheia porque a ninguém ocorre que, para ser verdadeiramente consciente em todos os instantes da vida – isto é, quando se pensa, quando não se pensa, quando se trabalha ou não se faz nada, quando se estuda ou não – e em todos os movimentos que executamos durante o dia, quando andamos, sentamo-nos, comemos, bebemos, lemos, rimos ou estamos de mal humor é necessário que a nossa consciência esteja atenta e nos recorde que, para nos constituirmos em autênticos donos da nossa vida, devemos fazer dela uma sucessão de fatos felizes, que aumentem o valor de seu conteúdo”.

A Logosofia é uma doutrina de ordem transcendente e uma especialidade científica e metodológica que nos ensina realizar o Processo de Evolução Consciente através do seu método psicodinâmico para a formação e enriquecimento da nossa consciência de vida e com ela experimentarmos uma felicidade que antes, por termos vividos alheios a esta concepção, não nos era possível desfrutar.