O
Homem: Carrasco de Si Mesmo
por Hélio
Cannizzaro
"Como
se explica o fato de que, desejando o homem viver, por descuido ou por
ignorância, vá matando gradualmente essa vida?
Um
inimigo, que costuma penetrar dentro dele sem ser visto, é quem se encarrega de
amargar-lhe a vida e de fazer com que ela se debilite, perca força e até
sucumba, se não ocorrer a tempo uma reação. Esse inimigo se chama
descontentamento. (González Pecotche, Coletânea da
Revista Logosofia, Tomo II, 1980, pg. 253)".
Não
foi uma, não foram duas, mas algumas vezes que eu vi e ouvi um semelhante meu
auto-elogiar-se de que é portador desta ou daquela virtude, de que vive uma
vida sincera, honesta, voltada para a construção do bem, incapaz de fazer mal a
quem quer que seja e no entanto experimentar um descontentamento que lhe produz um vazio
interno que não é preenchido pela experiência e pelos conhecimentos adquiridos
com o seu modo de viver, nem pelo desfrute de comodidades proporcionadas pelos
recursos que tem e, às vezes, até enfastiado das diversões, das normas de
etiquetas ou de prazeres mundanos.
O
presente trabalho escrito tem o propósito de formular algumas reflexões
retiradas dos nossos estudos, investigações, experimentos e aplicação dos
princípios e ensinamentos da ciência humana de nome "Logosofia", criada pelo pensador e educador argentino Carlos Bernardo González Pecotche, a fim de que quem tenha interesse em
investigar e se certificar se o descontentamento é seu hóspede eventual ou
permanente e como fazer para ajuizá-lo, sentenciá-lo e ditar-lhe a pena de
morte.
Para
colaborar nesta humana e delicada tarefa González Pecotche indaga e considera: "O que é que cada um quer sem
tê-lo pensado? Viver. Ninguém pode negá-lo. Todos, ainda que não pensem nisso,
todos querem viver. Por que? Por que o ser gosta tanto dessa vida que quer
conservar? Porque sente, no mais íntimo de si, esse algo terno, tão grande,
quando por um instante é consciente de que vive. Nesses momentos, não sente ele
uma alegria indescritível? Não sente tristeza quando está doente e alegria
quando recupera a saúde, a saúde que traz a vida, a vida que traz o motivo da
existência neste mundo? Então, porque o descontentamento? Contra quem? Contra
si mesmo? Há motivos para tê-los em relação aos demais?"
Para
facilitar a nossa tarefa e compreender bem o que é o descontentamento visto
através das luzes científicas da Logosofia, é indispensável que realizemos um
cuidadoso exame de nós mesmos, do que "somos", do que "poderemos ser" e principalmente a quem nós devemos a nossa
própria "razão de
existir".
Ainda
que não sejamos melhores observadores do nosso próprio comportamento mental e
psicológico, todos nós temos a prerrogativa de fazer uma análise retrospectiva
da nossa própria vida e identificarmos a forma como fomos criados e educados
para chegarmos a ser o que somos.
Na
generalidade, podemos constatar que desde a nossa mais tenra idade nos foram
inculcados muitos preconceitos, crenças sobre fatos, coisas e idéias que cada
um de nós hoje defende ou adota como norma de conduta. Não devemos deixar de
considerar que muitas crenças e preconceitos nos foram inculcados pelos nossos
pais e pelos nossos professores com a maior boa fé em nossa infância, período o
mais acentuado da nossa insipiência mental e psicológica em que a reflexão não
intervém para distinguir o que é certo e o que é errado.
Ainda
dentro dessa mesma generalidade podemos também constatar que uma expressiva
maioria, prisioneira de uma permanente inércia mental, aceita de forma dócil e
mansa dar continuidade a muitos preconceitos - alguns com idade de mais de dois
mil anos - sem inquirir severamente os equívocos ou enganos contidos em muitos
deles que não só inibem o exercício da nobre função de pensar como também não
resistem à menor análise sensata da razão humana.
Depois
da infância passamos pela adolescência e juventude e chegamos à idade adulta
ocupados com a formação da nossa cultura pessoal e profissional, mas quase que
invariavelmente indiferentes ou alheios a um conceito claro e preciso sobre o
principal e universal objetivo da vida humana e assim entramos às cegas num
mundo conturbado e cheio de contradições e a partir daí nos ocupamos
exclusivamente do nosso ser físico, da nossa figura estética, da nossa educação
e cultura refinadamente condicionadas e dirigidas para a vida externa, buscando
a exaltação do nosso conceito pessoal diante dos demais, sem nos darmos conta
do crescimento oculto das nossas deficiências e propensões psicológicas,
dotadas de vida própria e autônomas que por ignoradas e não combatidas e
eliminadas, abrem espaços em nossa mente para acolhermos o descontentamento.
Até
aqui esboçamos, em traços gerais, o que "somos" como seres humanos em relação
íntima e direta com o comportamento individual, senão de todos, pelo menos de
uma significativa parcela da sociedade humana.
Adiante,
vamos esboçar o que "poderemos
ser" se nos
dispusermos fazer ciência em nossa própria vida, constituindo-a em campo
experimental para realizarmos o Processo de Evolução Consciente que
a ciência Logosofia oferece e ensina a todos os seres humanos que, vislumbrando
ou intuindo possibilidades maiores para os seus entendimentos, cultivam sadias
aspirações em busca de outros destinos.
Como
primeira lição, o iniciante na ciência Logosofia toma contato com uma realidade
até então por ele desconhecida: a da existência em si mesmo de um mundo interno
próprio, não físico - tão real como o mundo externo-físico - dotado de uma
constituição mental, sensível, instintiva e psicológica e integrada de sistemas
e mecanismos de funcionamentos espontâneos.
Em
seguida o iniciante toma contato com uma outra realidade que o surpreende ao
observar uma série de experiências que já viveu e ao tomar contato com as
concepções da Logosofia se deu conta de que durante muito tempo foi joguete de
muitos pensamentos que governavam a sua mente e exerciam uma influência
decisiva sobre o seu caráter, concluindo não ter sido o comandante-único do seu
mundo interno, conquanto sendo ele o seu único dono.
A
exemplo do que ocorre no mundo externo-físico, povoado de seres humanos de bom
e de mau comportamento, o mundo interno é povoado de pensamentos bons e úteis e
de maus e inúteis. O Processo
de Evolução Consciente
conduz o iniciante a efetuar um rigoroso e sereno estudo dos pensamentos,
selecionando os úteis e combatendo e eliminando os inúteis que prejudicam a
própria conduta ou entorpecem o livre desenvolvimento das faculdades mentais no
esforço de superação, organizando a vida sobre bases diferentes, mais sólidas e
mais bem dispostas.
Uma
lição didática e pedagógica para o iniciante é que o significado do vocábulo "pensamento" não é o que está impresso e expresso nos
dicionários da nossa língua, mas o que a ciência Logosofia atribui ao descobrir
que ele é um "ente-psicológico, um
ser, um personagem da vida mental", que se gesta, nasce, cresce,
adquire vida própria e autonomia suficiente para nos induzir ao cometimento de
erros de forma invisível aos nossos próprios entendimentos.
O
prezado e arguto leitor (a) já deve ter percebido que a Logosofia nos convida
realizar um estudo pleno da nossa psicologia, ressaltando que esse estudo deve
ser pleno, ou seja: caráter, tendências, pensamentos,
idéias, qualidades, defeitos e
tudo quanto direta ou indiretamente entra nos domínios das nossas faculdades
mentais e sensíveis e contempla os estados do nosso espírito.
Não
se trata, pois, de obter uma ilustração a mais nem tampouco de um medroso
mergulho na superfície da nossa psicologia, mas de percorrer uma extensa e
penetrante excursão explorativa dentro de nós mesmos para descobrirmos as
riquezas entesouradas em nosso mundo interno e com elas construirmos - com o
auxílio e orientação dos princípios e ensinamentos da ciência de González
Pecotche - uma nova vida em que mudarão os conceitos das coisas, mudarão as
atitudes e principalmente a nossa conduta que nos permitirá compreender mais
amplamente que devemos ao nosso Criador a "razão
do nosso existir" e que somos os únicos seres
viventes deste mundo dotados de inteligência e consciência para identificarmos,
combatermos e eliminarmos o descontentamento do nosso mundo interno, evitando
nos tornar o próprio "carrasco" das nossas mais justas e nobres
aspirações de Bem.
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