A Herança de Si Mesmo

"Os grandes homens que se destacam através das três épocas clássicas em que se divide a história humana, sempre foram reconhecidos grandes por seus pensamentos e por suas idéias quando, após titânica e firme luta, conseguiram mover a atenção e fazer com que se advertisse o bem que continham. Em quantas mentes penetrou a luz de seus pensamentos e idéias! Quantas foram fecundadas com a semente das extraordinárias concepções daquelas inteligências que puseram ali todo o poder de sua influência criadora".
Carlos Bernardo González Pecotche - Criador da Logosofia

terça-feira, 7 de agosto de 2012


O Homem:  Carrasco de Si Mesmo

por Hélio Cannizzaro



"Como se explica o fato de que, desejando o homem viver, por descuido ou por ignorância, vá matando gradualmente essa vida?

Um inimigo, que costuma penetrar dentro dele sem ser visto, é quem se encarrega de amargar-lhe a vida e de fazer com que ela se debilite, perca força e até sucumba, se não ocorrer a tempo uma reação. Esse inimigo se chama descontentamento. (González Pecotche, Coletânea da Revista Logosofia, Tomo II, 1980, pg. 253)".



Não foi uma, não foram duas, mas algumas vezes que eu vi e ouvi um semelhante meu auto-elogiar-se de que é portador desta ou daquela virtude, de que vive uma vida sincera, honesta, voltada para a construção do bem, incapaz de fazer mal a quem quer que seja e no entanto experimentar  um descontentamento que lhe produz um vazio interno que não é preenchido pela experiência e pelos conhecimentos adquiridos com o seu modo de viver, nem pelo desfrute de comodidades proporcionadas pelos recursos que tem e, às vezes, até enfastiado das diversões, das normas de etiquetas ou de prazeres mundanos.

O presente trabalho escrito tem o propósito de formular algumas reflexões retiradas dos nossos estudos, investigações, experimentos e aplicação dos princípios e ensinamentos da ciência humana de nome "Logosofia", criada pelo pensador e educador argentino Carlos Bernardo González Pecotche, a fim de que quem tenha interesse em investigar e se certificar se o descontentamento é seu hóspede eventual ou permanente e como fazer para ajuizá-lo, sentenciá-lo e ditar-lhe a pena de morte.

Para colaborar nesta humana e delicada tarefa González Pecotche indaga e considera: "O que é que cada um quer sem tê-lo pensado? Viver. Ninguém pode negá-lo. Todos, ainda que não pensem nisso, todos querem viver. Por que? Por que o ser gosta tanto dessa vida que quer conservar? Porque sente, no mais íntimo de si, esse algo terno, tão grande, quando por um instante é consciente de que vive. Nesses momentos, não sente ele uma alegria indescritível? Não sente tristeza quando está doente e alegria quando recupera a saúde, a saúde que traz a vida, a vida que traz o motivo da existência neste mundo? Então, porque o descontentamento? Contra quem? Contra si mesmo? Há motivos para tê-los em relação aos demais?"

Para facilitar a nossa tarefa e compreender bem o que é o descontentamento visto através das luzes científicas da Logosofia, é indispensável que realizemos um cuidadoso exame de nós mesmos, do que "somos", do que "poderemos ser"  e principalmente a quem nós devemos a nossa própria "razão de existir".

Ainda que não sejamos melhores observadores do nosso próprio comportamento mental e psicológico, todos nós temos a prerrogativa de fazer uma análise retrospectiva da nossa própria vida e identificarmos a forma como fomos criados e educados para chegarmos a ser o que somos.

Na generalidade, podemos constatar que desde a nossa mais tenra idade nos foram inculcados muitos preconceitos, crenças sobre fatos, coisas e idéias que cada um de nós hoje defende ou adota como norma de conduta. Não devemos deixar de considerar que muitas crenças e preconceitos nos foram inculcados pelos nossos pais e pelos nossos professores com a maior boa fé em nossa infância, período o mais acentuado da nossa insipiência mental e psicológica em que a reflexão não intervém para distinguir o que é certo e o que é errado.

Ainda dentro dessa mesma generalidade podemos também constatar que uma expressiva maioria, prisioneira de uma permanente inércia mental, aceita de forma dócil e mansa dar continuidade a muitos preconceitos - alguns com idade de mais de dois mil anos - sem inquirir severamente os equívocos ou enganos contidos em muitos deles que não só inibem o exercício da nobre função de pensar como também não resistem à menor análise sensata da razão humana.

Depois da infância passamos pela adolescência e juventude e chegamos à idade adulta ocupados com a formação da nossa cultura pessoal e profissional, mas quase que invariavelmente indiferentes ou alheios a um conceito claro e preciso sobre o principal e universal objetivo da vida humana e assim entramos às cegas num mundo conturbado e cheio de contradições e a partir daí nos ocupamos exclusivamente do nosso ser físico, da nossa figura estética, da nossa educação e cultura refinadamente condicionadas e dirigidas para a vida externa, buscando a exaltação do nosso conceito pessoal diante dos demais, sem nos darmos conta do crescimento oculto das nossas deficiências e propensões psicológicas, dotadas de vida própria e autônomas que por ignoradas e não combatidas e eliminadas, abrem espaços em nossa mente para acolhermos o descontentamento.

Até aqui esboçamos, em traços gerais, o que "somos" como seres humanos em relação íntima e direta com o comportamento individual, senão de todos, pelo menos de uma significativa parcela da sociedade humana.

Adiante, vamos esboçar o que "poderemos ser" se nos dispusermos fazer ciência em nossa própria vida, constituindo-a em campo experimental para realizarmos o Processo de Evolução Consciente  que a ciência Logosofia oferece e ensina a todos os seres humanos que, vislumbrando ou intuindo possibilidades maiores para os seus entendimentos, cultivam sadias aspirações em busca de outros destinos.

Como primeira lição, o iniciante na ciência Logosofia toma contato com uma realidade até então por ele desconhecida: a da existência em si mesmo de um mundo interno próprio, não físico - tão real como o mundo externo-físico - dotado de uma constituição mental, sensível, instintiva e psicológica e integrada de sistemas e mecanismos de funcionamentos espontâneos.

Em seguida o iniciante toma contato com uma outra realidade que o surpreende ao observar uma série de experiências que já viveu e ao tomar contato com as concepções da Logosofia se deu conta de que durante muito tempo foi joguete de muitos pensamentos que governavam a sua mente e exerciam uma influência decisiva sobre o seu caráter, concluindo não ter sido o comandante-único do seu mundo interno, conquanto sendo ele o seu único dono.

A exemplo do que ocorre no mundo externo-físico, povoado de seres humanos de bom e de mau comportamento, o mundo interno é povoado de pensamentos bons e úteis e de maus e inúteis. O Processo de Evolução Consciente conduz o iniciante a efetuar um rigoroso e sereno estudo dos pensamentos, selecionando os úteis e combatendo e eliminando os inúteis que prejudicam a própria conduta ou entorpecem o livre desenvolvimento das faculdades mentais no esforço de superação, organizando a vida sobre bases diferentes, mais sólidas e mais bem dispostas.

Uma lição didática e pedagógica para o iniciante é que o significado do vocábulo "pensamento"  não é o que está impresso e expresso nos dicionários da nossa língua, mas o que a ciência Logosofia atribui ao descobrir que ele é um "ente-psicológico, um ser, um personagem da vida mental", que se gesta, nasce, cresce, adquire vida própria e autonomia suficiente para nos induzir ao cometimento de erros de forma invisível aos nossos próprios entendimentos.

O prezado e arguto leitor (a) já deve ter percebido que a Logosofia nos convida realizar um estudo pleno da nossa psicologia, ressaltando que esse estudo deve ser pleno, ou seja: caráter, tendências, pensamentos, idéias, qualidades, defeitos e tudo quanto direta ou indiretamente entra nos domínios das nossas faculdades mentais e sensíveis e contempla os estados do nosso espírito.

Não se trata, pois, de obter uma ilustração a mais nem tampouco de um medroso mergulho na superfície da nossa psicologia, mas de percorrer uma extensa e penetrante excursão explorativa dentro de nós mesmos para descobrirmos as riquezas entesouradas em nosso mundo interno e com elas construirmos - com o auxílio e orientação dos princípios e ensinamentos da ciência de González Pecotche - uma nova vida em que mudarão os conceitos das coisas, mudarão as atitudes e principalmente a nossa conduta que nos permitirá compreender mais amplamente que devemos ao nosso Criador a "razão do nosso existir" e que somos os únicos seres viventes deste mundo dotados de inteligência e consciência para identificarmos, combatermos e eliminarmos o descontentamento do nosso mundo interno, evitando nos tornar o próprio "carrasco" das nossas mais justas e nobres aspirações de Bem.