As
feras mentais
por
Hélio Cannizzaro
Carlos Bernardo
González Pecotche (1901-1963), pensador e cientista argentino, criou a ciência
“Logosofia” e a fez depositária de uma nova linha de conhecimentos originais e
concretos, todos eles direcionados para o aprimoramento da natureza extrafísica
humana nos seus aspectos – mental, moral, psicológico e espiritual.
Para facilitar a
interpretação e a compreensão dos seus princípios e ensinamentos González
Pecotche utiliza-se de uma didática e de uma pedagogia clara e transparente e
não raro recorre a uma história, um conto, uma metáfora, um axioma ou uma
analogia, como a que está contida no seu artigo adiante reproduzido:
“A IMAGEM DA SELVA MENTAL
A mente humana é o mais sensível
que pode existir; é a suprema sensibilidade do sensível. As imagens gravam-se
nela por efeito das impressões recebidas. Por essa causa, quando o homem venceu
a fera e a matou, a imagem desta gravou-se em sua mente, começando sob esta
nova forma, a adquirir vida no interno e a dominar o ser. Por isso o homem é,
às vezes, agressivo e desumano, pois ainda lhe faltam realizar alguns trabalhos
hercúleos entre eles o de dominar a fera interna, a de sua selva mental, que é a
mais selvagem de todas as feras. A Logosofia ensina a descobri-la entre as sombras
desse bosque, para que, vigiando-a, seja impedida de matar as formosas aves que
querem cantar no mais íntimo do ser. Mas, não se compreendeu ainda a grandeza
desta verdade: e é por isso que ainda reina a fera no bosque mental.
Entretanto, é necessário dominá-la, mas não com as armas da violência, senão
com as da persuasão, da limpeza e da verdade. A fera não deve morrer, porque o
triunfo não está em matá-la; é necessário que viva, mas em estado doméstico.
Essa fera, domesticada, é a representação da força interna, que, se hoje é uma
força sem controle, amanhã será uma força inteligente que fortalecerá o ânimo e
encherá de grandes estímulos a vontade humana. Será então quando o homem poderá
dizer: - sou dono de minhas próprias posses internas, porque soube dominar e
amansar a fera dentro de mim mesmo. Os estados mentais pelos quais
passam uns e outros são por demais curiosos: por momentos, muito bons; a selva
está tranqüila e suaves brisas perfumadas os embriagam de alegria. Ao
contrário, em outros momentos, a mente adquire um aspecto sombrio; a fera
estremece, as narinas se dilatam, encrespa seu ânimo e todo mundo se previne
porque algo está ocorrendo dentro do bosque mental. Deveria cada um perguntar-se
porque está sempre à mercê dessa fera, mostrando-se incapaz de viver tranqüilo
dentro de seu reino, inseguro de suas próprias posses. Como é possível, em tais
condições, oferecer paz aos demais? Eis aí uma indagação que todos devem
formular-se”.
Posso afirmar,
sem receios de estar incorrendo numa propensão ao exagero, que todos nós humanos
temos dificuldades em reconhecer a existência em nós mesmos de deficiências e
propensões psicológicas – autênticas feras mentais, menores e maiores –
enraizadas em nossa psicologia, dotadas de vida própria, autônomas, despóticas,
arbitrárias, ferinas, que nascem, crescem, vivem e compartilham do comando dos
nossos atos, das nossas palavras e do nosso comportamento independentemente do
nosso querer e da nossa inteligência.
É muito difícil,
para não dizer impossível, alguém – sem estudar e dominar a “Ciência da Vida” –
compreender e aceitar que é um criador nato e um permanente alimentador das
suas feras internas, carregando-as como “penduricalhos”
da sua psicologia para ser atacado, mordido ou picado a qualquer momento por
algumas delas.
Eu também não
fui excluído do desconhecimento dessa inusitada e perversa realidade interna.
Antes de abraçar os estudos e os experimentos da ciência Logosofia, eu me
deixava iludir por uma falsa visão de que as deficiências e propensões
psicológicas (defeitos, no conceito corrente) como a intolerância, a
impaciência, a petulância, a impulsividade, o rancor, o pessimismo, a inveja, o
ressentimento, o ódio, a obstinação, a teimosia, o egoísmo, etc., existiam nas
pessoas dos meus vizinhos, nos meus familiares, nos meus companheiros de
trabalho, enfim nos meus semelhantes, mas nunca em mim mesmo e não me abdicava
daquela “musiquinha de fundo”que
todos temos os nossos defeitos e que ninguém neste mundo é perfeito. Paradoxalmente,
mesmo declarando por palavras ter os meus defeitos, eu não sabia da existência
de um só deles em meu comportamento.
Contrariamente a
uma frase conhecida e cantada numa música popular brasileira, cujo autor não me
ocorre agora, que diz que “eu era feliz e
não sabia”, eu, como criador e alimentador inconsciente das minhas
deficiências e propensões psicológicas, de forma alheia à minha observação e ao
meu entendimento, permitia que as minhas feras mentais passeassem livremente no
meu quintal psicológico que bem poderia ser convertido numa paródia burlesca àquela
música popular cantando que “eu era
infeliz e não sabia”.
A cômoda posição
de filosofar sobre si mesmo de que não é necessário estudar e praticar a
Ciência da Vida porque o que se sabe já é o suficiente para sustentar uma
existência sem atrativos superiores e transcendentes é o que tem impedido que
nós conheçamos a nossa fauna interna, pois se eu parto do pressuposto de que
não sou portador da deficiência psicológica da vaidade; da inveja, nem pensar;
da presunção, muito menos; e, da falsidade, Deus me defenda; eu estou fechando
o único canal que poderia me conduzir ao encontro de algum rastro ou vestígio
dessas traiçoeiras e indesejáveis feras mentais.
Não duvido – ao
contrário, estou bem seguro - de que no
final deste trabalho escrito eu estaria incorrendo em um exagero se estendesse
os meus enfoques do mau comportamento mental e psicológico a todos os seres
humanos; além do exagero eu estaria pondo de manifesto um acentuado
desequilíbrio no juízo dos valores. Felizmente, e para a satisfação da nossa
espécie, são incontáveis as pessoas de bem, educadas, probas, cultas, honradas,
inteligentes, de elevado comportamento ético e que formam a grande reserva
moral da humanidade.
Mas, as
dificuldades de reconhecerem a existência das deficiências e propensões
psicológicas em si mesmas são iguais às existentes em qualquer ser humano –
cultos ou incultos –, a diferença só existe nos comportamentos éticos.
A Logosofia –
uma especialidade científica do comportamento humano – criada pelo pensador
argentino González Pecotche, nos ensina a realizar o Processo de Evolução
Consciente, que implicitamente se traduz no Conhecimento de Si Mesmo, aonde
vamos conhecer e aprender uma técnica para investigar, identificar, selecionar,
bloquear e eliminar a existência de 44 deficiências e 22 propensões
psicológicas, no total de 66 feras mentais, menores e maiores, que habitam o
nosso bosque mental com o nosso inconsciente consentimento, preparadas todas
elas para dar o seu bote a qualquer momento de descuido do nosso comportamento.

