CULTURA e CIÊNCIA
por Hélio Cannizzaroheliocannizzaro@gmail.com
Levei um bom tempo para compreender
e associar ao meu comportamento uma
diretriz do método da ciência humana “Logosofia”,
aqui reproduzida:
“Em geral o ser humano ignora que, além da instrução que recebe ― compreendendo até a mais esmerada educação e
ilustração que é possível obter na Universidade em matéria de especialização
técnica e científica —, existem uma cultura e uma ciência cujos conhecimentos,
não sendo semelhantes aos que se ministram nos centros oficiais de estudo, têm
de ser adquiridos fora deles, pelo esforço pessoal e dedicação intimamente
estimulados e postos a serviço de um ideal cuja concepção escapa às considerações
e juízos correntes”. (Do Livro, Logosofia, Ciência e Método, 3a
Edição, pg. 21, 1980).
A minha dificuldade tinha origem no
meu inveterado hábito de encarar qualquer leitura ou estudo sempre de forma
extraindividual, ou seja, como ilustração intelectiva, literária, técnica,
profissional, utilitária ou especulativa.
Para uma melhor análise da
dificuldade da qual eu era prisioneiro, ofereço a minha própria experiência:
antes de conhecer a nova cultura e a ciência experimental criadas pelo pensador
e cientista argentino Carlos Bernardo
González Pecotche (1901 / 1963), eu não me dava conta que fazia parte
integrante do meu temperamento – entre outras ainda não identificadas – uma
deficiência psicológica (defeito, no conceito corrente), de velhas raízes e de
índole arbitrária, que me levava a me comportar repetidamente de forma
irrefletida, precipitada, fora de tempo e sem medida, desestabilizando a minha
serenidade mental e diminuindo a minha paz interior, classificada pela
Logosofia com o nome de “impulsividade”.
Inicialmente, li os livros “O Mecanismo
da Vida Consciente” e “Exegese Logosófica”, adquirindo uma razoável ilustração
sobre a nova ciência, mas muito pouco ou quase nada eu experimentei ou apliquei
os seus princípios e ensinamentos à minha própria vida, como recomenda o seu
método psicodinâmico. Ao final de um breve tempo constatei que antes de
conhecer a Logosofia eu era uma pessoa “impulsiva-não-ilustrada”;
após a leitura dos referidos livros passei a ser uma pessoa “impulsiva-ilustrada”.
Obviamente, este não é um dos
objetivos desta nova cultura e ciência do aperfeiçoamento do comportamento
humano. A conquista de uma ilustração sobre qualquer tema ou assunto e o
enriquecimento intelectual buscado na cultura geral vigente hierarquiza o ser
humano sem qualquer vestígio de dúvidas, mas essas reconhecidas e valiosíssimas
realizações são de índole e de usos diferentes se comparadas com o que
concomitantemente podemos obter aprendendo a realizar cientificamente o
“Processo de Evolução Consciente” ensinado pela Logosofia – o que implicitamente
significa o Conhecimento de Si Mesmo – ao abrir as portas do nosso mundo
interno e nos capacitar para descobrirmos as riquezas nele existentes e com
elas promovermos uma ampla e integral reforma da nossa vida, em parte
escravizada por muitos conceitos inadequados, por antigos preconceitos ou por
velhos dogmas que turvam a nossa vista e nos impede enxergar as virtudes e a
originalidade dos conhecimentos desta ciência experimental.
Houve um período da minha vida que
eu interpreto, de um lado , com uma fugaz jocosidade, e, de outro, com um
discreto pesar, e que consistia em que eu especulava com a compreensão de que
nós humanos, indistintamente, éramos portadores de virtudes e defeitos, mas, na
prática, científica e conscientemente, eu nunca consegui identificar uma só ou
única deficiência (defeito) no meu comportamento, e não perdia a oportunidade
de exaltar as minhas reais ou supostas virtudes. Vivia, assim, em relação a mim
mesmo, uma vida inconsciente e alheio à minha verdadeira realidade interna,
suportando docilmente um cativeiro mental e moral imposto pela tirania das
minhas ignoradas deficiências e propensões psicológicas, que sub-repticiamente
sustentavam um governo interno, paralelo e dissimulado, capaz de iludir ainda
ao mais astuto ou paralisar a percepção inteligente do mais culto e mais sabido
dos homens.
À medida que intensifico os estudos
da Logosofia aperfeiçoando a técnica na aplicação dos seus princípios e
ensinamentos à minha vida, vou girando a luneta da minha observação para um
lado e outro e não tem sido difícil comprovar o incontável número de pessoas
que estão na mesma situação em que eu me encontrava, não se constituindo o meu
caso um fato isolado ou um traço defeituoso do meu caráter nem tampouco
interpretado como uma realidade universal, mas nem por isto deixa de ser
visível aos olhos do entendimento do bom observador que a evolução humana no
plano não-físico ou imaterial – no enfoque desta nova ciência – tem sido mal
conduzida e muitas vezes pior continuada, o que fortalece ainda mais o
descompasso existente entre a evolução do plano físico-material com os seus
gigantescos avanços e a indiferença e o abandono em que o homem tem tratado a
sua vida psíquica e espiritual, sendo o único ser vivente da Criação dotado de
inteligência e sensibilidade.
Não há negar que o homem tem
conseguido com esforço próprio conquistar uma vasta ilustração e colocar-se
entre os que se destacam nas letras, na intelectualidade, nas profissões, na
política, nas finanças, nas artes e em todos aqueles ramos do saber comum, mas
se mantém alheio e muito distante da original descoberta revelada pela ciência
Logosofia desde 1930 sobre a natureza extrafísica dos “pensamentos”, definidos
como entes-psicológicos, dotados de vida própria, autônomos, que podem ter
atividades dependentes e independentes da nossa vontade e da nossa razão, que
passam de uma mente à outra numa fração de segundo, e que, sem que nós percebamos,
compartilham do comando da nossa vida, ora nos conduzindo para os acertos e ora
nos induzindo ao cometimento de erros contra nós mesmos ou em desfavor dos
nossos semelhantes.
Conclusivamente, e sem dar rédeas
soltas ao exagero e ao pessimismo, é factível comprovar que os nossos acertos
vão se convertendo em argamassa para cimentar as nossas virtudes que enobrecem
a nossa vida, hierarquizam os nossos bons e úteis pensamentos (entes-psicológicos
vivos), desenvolvem a nossa sensibilidade e ampliam o nosso entendimento para
assimilar e praticar os dinâmicos e revolucionários conceitos da nova cultura
criada pelo educador e humanista González Pecotche.
Os nossos erros materializam a
escória dos nossos deslizes que aviltam a nossa vida, paralisam a nobre função
de pensar, endurecem os nossos sentimentos e podem nos introduzir nos
corredores cinzentos das decepções, do ceticismo e do inconformismo, mas
poderão também ser fundidos no crisol das nossas positivas realizações mentais
e morais se nos aprestarmos em sermos donos e timoneiros conscientes da nossa
própria vida e não um ser estranho à nossa natureza física-psíquica-espiritual.
Esse é o primeiro encontro da nossa
realidade interna com as verdades espalhadas na Criação e com a inexorabilidade
das Leis Universais.
Esse encontro – o mais significativo
para o despertar da nossa consciência – é visto pelas lentes óticas da
Logosofia como o menos estudado da vida humana pelo homem porque, por
ignorância ou por inércia mental e volitiva, se deixa seduzir com facilidade
pelos maus e inúteis pensamentos (também entes-psicológicos vivos) que o
arrasta para os torvelinhos caminhos dos vícios, do desalinho moral, do
desfrute de deleites efêmeros de um mundo quimérico ou, na melhor das
hipóteses, pela dedicação única e exclusivamente da sua existência para as
conquistas e interesses só materiais, desdenhando que a vida humana tem um
conteúdo transcendente e metafísico e é nele onde estão esculpidas em relevo as
respostas a todas às inquietudes e indagações formuladas pelo espírito humano
desde os tempos em que vêm se apagando da nossa memória.
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